Saturday, 27 January 2007

Babel (fiem-se no M.J.T.)

As minhas "duras criticas" ao Babel não têm sido muito bem recebidas, e eu compreendo, afinal, que sei eu de cinema? Nada. Não se fiem em mim.

Mas podem-se fiar no excelentíssimo Mário Jorge Torres, critico do Público e um homem a quem eu tenho a honra de chamar professor. Descobri que curiosamente, partilhamos a mesma opinião...

"(...) perfila-se para uma chuva de Óscares com esta "elaborada" narrativa em mosaico, cruzando três histórias, ligadas entre si, por mais do que óbvios fios ficcionais: um caçador japonês oferece a espingarda ao seu guia marroquino, que a vende a um pastor que, por sua vez, a dá aos filhos para protegerem os rebanhos dos chacais; os "queridos meninos" entretêm-se a disparar contra um autocarro de turistas e atingem uma americana (Cate Blanchett, para dar a necessária caução estelar), em viagem de reconciliação (nunca se percebe bem) com o marido (Brad Pitt, em mais um "papel de embrulho" luxuoso), cujos filhos (loiros e "anglos", como convém) estão ao cuidado de uma empregada mexicana, clandestina; esta, porque não tem com quem os deixar, atravessa com eles a fronteira, para assistir ao casamento do filho. No regresso, conduzidos pelo sobrinho da mexicana (pobre Gael Garcia Bernal, para apelar ao mercado hispano falante), têm problemas com a polícia fronteiriça e as adoráveis crianças acabam perdidas no deserto e a dita cuja criada é extraditada. Entretanto, e pelo meio, com montagem paralela, bem denunciada, o caçador japonês (tinham-se esquecido do caçador japonês?), tinha uma filha surda-muda e ninfomaníaca, filha de uma mãe suicida. As imagens na televisão, relatando o imbróglio internacional, fazem o resto e lançam os três episódios, em lentíssima velocidade, a caminho da Babel do título, glosa do mito bíblico e modo de arrumar, no mesmo pacote, os marroquinos terceiro mundistas, os japoneses da sociedade da abundância e da massificação e os mexicanos da diáspora (...) A encenação deambula pelos três espaços (...) sem tom nem som, desperdiçando tudo (...) Se o objectivo era mesmo demonstrar à exaustão os malefícios da globalização, o projecto precisaria, para não cair neste demagógico exercício sobre o vazio, de personagens que ultrapassassem a caricatura estereotipada, de um "timing" adequado para gerir saltos no tempos, regressos a diferentes pontos de vista sobre a mesma linha ficcional e, sobretudo, de uma noção mínima do entrosamento (complicado) entre diferenças culturais e comportamentos cívicos (...) o filme escorrega na demagógica tentação de opor os "bons selvagens" à selvática repressão policial; jogando com o poder do aleatório, uma espécie de caricatural escrita automática, para justificar a anarquia narrativa e o bocejo generalizado, que se instala.(...)"

Pois, é isso...

Por outro lado, A Ciência dos Sonhos é um filme lindissimo, inocente e de uma doçura tão naive que comove, inevitavelmente. É um surrealismo familiar e confortante, e um papel bem mais interessante para Bernal. As cadeiras do Cine-Palmeiras já não eram cor de rosa, mas, como pretendia, babei-me de satisfação para cima delas. (O M.J.Torres deu-lhe duas estrelas, se querem mesmo saber)

O proximo é o Paris, je t'aime.

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