Saturday, 6 January 2007

Como tomar o pequeno almoço com os Deuses e ir trabalhar a seguir...


Aqui vão algumas palavras sobre um álbum que recomendo vivamente, em especial a quem gosta de música mais tranquila, ...tipo "música para hibernar".
Na secção do som calminho, a descoberta do ano de 2006 foi para mim uma senhora que dá pelo nome de Sibylle Baier e que viu editado em 2005 o álbum Color Green.
Este álbum tem uma história bem interessante, que gostaria de partilhar convosco:
Os temas que compõem este registo foram gravados entre 1970 e 1973, por uma então obscura actriz de teatro Alemã (advinharam... é a Sibylle Baier), cuja paixão secreta era a música. Reza a história que quando chegava a casa do trabalho, e depois de pôr os miúdos (e o marido) a dormir, ia para um pequeno quarto, dedicar-se ao seu hobbie - a criação de musica folk. O resultado foi um conjunto de 15 temas, cuja audição vos recomendo vivamente.

Imaginem uma Nico, com uma voz mais feminina, mais doce, com letras simples, terra a terra, que nos transportam imediatamente para o mundo da realidade colorida dos anos 60, onde tudo é possível, onde somos todos bonzinhos, onde basta esticar o braço para colher da árvore o resultado dos nossos sonhos. Para contrastar, coloquem em cima da anterior imagem uma suave folha transparente de tons ligeiramente acinzentados, que reflecte a tristeza resultante do clima social da Alemanha do pós-guerra. Importa recordar que à primeira geração com educação superior após o conflicto não era permitido sonhar individualmente, mas sempre em prol do grupo.
Assim, o leitmotiv desta pequena pérola da folk é o prazer de existir, porque nos permite desejar, sonhar e saborear os pequenos momentos.
Oiçam o genial tema Tonight no seguinte site. Tenho a certeza que assim compreendem melhor o que vos quero dizer:

http://www.everythingisfire.com/index.php?itemid=155

Continuando a história. Os 15 temas gravados num convencional gravador de fitas, ficaram esquecidos no fundo de um baú durante os próximos 30 anos. Neste período de tempo Sybille Baier dedicou 99% do tempo à sua família e apenas 1% à sua profissão de actriz. Além de pouquíssimas peças de teatro, entrou como actriz secundária no filme Alice in the Cities (1974) de Wim Wenders e escreveu alguns argumentos para cinema e TV. A dada altura muda-se com a família para New York onde ainda vive actualmente.
Nestes 30 anos nunca mais voltaria a dar atenção à sua música.
Em 2004, seu filho, cuja profissão é, curiosamente, ...produtor de música, decide oferecer à sua mãe uma prenda muito original: Masterizar e passar para CD os poeirentas registos que se encontram espalhadas pelas várias fitas magnéticas. Para tal pediu ajuda ao seu colega de profissão e amigo J. Mascis (sim esse, dos Dinosaur Jr. - bem relacionado, o miúdo!). Este percebendo de imediato o potencial do material, dedicou-se ele próprio à “lapidação” deste pequeno diamante em bruto.
O resultado está à vista, e é para mim uma das obras da folk mais doces e intrigantes que já ouvi. É certo que não se trata de uma pedra basilar da folk minimalista, como, por exemplo, Songs from a Room de Leonard Cohen, ou Pink Moon de Nick Drake, mas não deixa de ser um exercício admirável imaginar como uma simples e vulgar mãe de família ascendeu ao nível dos deuses, conviveu com eles durante alguns minutos e voltou para criar os filhos. Não sei porquê, mas não consigo pensar nesta imagem sem me emocionar, sem sentir um aperto na garganta.

Bom, espero que vos tenha conseguido aguçar o apetite para ouvirem o Color Green da Sibylle Baier.

Sons relacionados: Se gostarem deste som, não deixem de ouvir Vashti Bunian, que produziu o dobro do material de Sibylle Baier (2 álbuns - yeah!), e cuja história de vida é muito semelhante à da Sibylle, vejam na wikipedia:

http://en.wikipedia.org/wiki/Vashti_Bunyan#Albums

Dela tenho o seu 2º álbum Lookaftering de 2005, que foi gravado 35 anos depois do primeiro e resultou do mediatismo gerado em torno do seu nome, principalmente devido à admiração pública de Vashti por parte do padrinho da actual freak folk, Devendra Banhard.
Não chega, quanto a mim, aos calcanhares de Color Green, mas vale pela influencia que o seu percussor (Just another diamond day), excerceu sobre os protagonistas da Folk actual (Devendra Banhard, six organs of admittance, Animal Collective, ...).
Bom, já se faz tarde... é tudo por hoje. Vou fazer óh-óh ao som da Sibylle!!
Bye.
Tatas

1 comment:

Fernando said...

Segui o link e estive a ouvir a Sibylle Baier. Muito bom. A música ganha especial valor com a história por trás dela. Boa dica.