Wednesday, 18 April 2007

Cinema com C grande

Olá a todos!

A Páscoa é uma altura de contemplação do Divino, mas como eu já estou morta por dentro há algum tempo decidi ir ao cinema em vez de acender velas e comer peixe. Encontrei o Divino em todo o lado. Deixo algumas considerações:

300 - Esta adaptação da novela gráfica de Miller é fácilmente censurável (e a critica não lhe têm perdoado, como já se devem ter apercebido): é um filme com uma linha narrativa sofrivel, ausência de grandes estrelas que arrastem multidões às salas de cinema, personagens unidimensionais que não conhecem conflito individual ou qualquer evolução (espartanos querem matar persas até à morte, espartanos matam persas e morrem) e nem sequer têm grande interesse do ponto de vista histórico.
No entanto, 300 é belo: cada frame pode ser saboreado como uma pintura a óleo, cada pormenor é tratado ao pormenor com o intuito unico de retratar uma certa ideia de beleza helénica: cruel, perfeita, divina.
É um filme delicioso do ponto de vista visual, mas não vale a pena procurar lá coisas que lá não estão (como conjecturas de possiveis leituras politicas ou propagandistas do filme). 300 é um filme sobre uma novela grafica sobre um filme sobre um acontecimento histórico. Esta distanciação não é brechtiana, é literal.

The Fountain - O Último Capítulo - Foi escolachado pela critica e se não fosse a infinita generosidade dos cinemas UCI - El Corte Inglés nem teriamos o prazer de o ver numa sala de cinema. É de facto uma pena que a grande parte do público vá perder aquele que é a meu ver o melhor desempenho de Hugh Jackman até à data (e ele até foi um Wolverine extremamente convincente). Rachel Weiz está igual a si própria, não desilude nem surpreende (apesar da perturbadora semelhança fisica com Pete Doherty). The Fountain está contruido em três niveis distintos, que, se isolados não são nada por aí além, completam-se perfeitamente. Os paralelismos de planos mantêm o filme coeso e homogeneo, e o espectador é comfortavelmente guiado entre a Vida, a Arte e Deus, numa comovente consideração sobre estas realidades. Adorei o filme quando o vi, mas confesso que o esqueci logo no dia seguinte depois de ter visto o...

Sunshine - Missão Solar - Eu nunca me dignaria a gastar uma tarde numa sala de cinema para ver este filme se não fosse o reconfortante nome de Danny Boyle e as mãos largas da Yorn que me ofereceu um bilhete para a ante estreia e uma T-shirt toda catita com o Stallone e tal. Adiante.
Sunshine é um filme para ver de coração aberto e de olhos fechados aos insignificantes erros formais. Sim, tive de desligar as minhas considerações calculistas da análise fílmica. O argumento é francamente fraco, as representações não são assinaláveis (não são más, mas também não são assinaláveis) e a história não têm nada de especialmente inovador. O género já tinha sido gasto e Danny Boyle não fez um esforço para disfarçar as referências ou fugir a clichés: em Sunshine encontramos Armaggedon, Alien, 2001 - Odisseia no espaço e até um cheirinho a Big Brother. As personagens são estereótipos e revelam cedo o seu próprio desfecho, quando o filme começa já sabemos como vai acabar, não há nada na história que surpreenda especialmente. No entanto, Sunshine é Perfeito. Profundamente comovente sem um ligeiro esboço que seja de lamenchice. A realização é o que eleva este filme ao filme do género para acabar com todos os filmes do género (talvez isto seja uma over statement... mas adiante). A imagem do Sol (confrontar com a imagem da nebulosa em The Fountain) é genialmente apresentada como uma Ideia de Divino: assustador, aterrorizante, esmagador, absolutamente Belo. Uma das personagens refere a páginas tantas que se a escuridão absoluta é a ausência absoluta, então a luz absoluta é o Tudo absoluto e é nesta afirmação que se condensa o filme. Atenção também ao efeito Fight Club do frame repentino. Truque de um realizador que sabe exactamente o que inspira terror sem sustos, o que deixa uma audiencia na pontinha da cadeira.
Sendo que a luz é imagem e que a arte da imagem é o Cinema, encontra-se aqui a verdadeira essencia deste filme: a Imagem antes da história, do argumento ou dos diálogos. O Deus na Arte e a Arte no Cinema. Cinema, note-se, com C grande.

1 comment:

Kambuta said...

É sempre um prazer ler as tuas críticas de cinema.

Lá vou eu ter que ir ver o Sunshine.